terça-feira, 25 de março de 2008

THE MONKEY AMONG WASPS

Está escrito logo ali embaixo que as ideologias embotam o raciocínio. E, verdade seja dita, isto vale para todas as ideologias. Prova disto, além do cardápio habitual dos esquerdistas, é o filme Fogo Cruzado, Rapid Fire em inglês, mais precisamente um tele-filme. Conta a história de um dos mais violentos assaltos acontecidos nos EUA. Detalhe: os vilões são de direita.

A película é duma chatice impressionante e não há uma só atuação que salve. Bobagens familiares, romancezinhos, uma cena de nudez mais do que gratuita e dramazinhas muito provavelmente inverídicos recheiam os antecedentes da história em si.

Mostra-se ali um grupo de homens desmiolados liderados por um sujeito completamente tapado em alguns ideais de direita, bem ao gosto dos amantes das armas. O sujeito acredita que as leis naturais lhe dão o direito de fazer o que bem entende, dado que um governo central não está de acordo com elas, assim ele se julga autorizado a não respeitar lei alguma, pura e simplesmente, fazendo-o apenas porque não tem condições de medir forças com a polícia. Ao menos até ter a idéia de realizar o tal assalto.

E ele se mete a assaltar porque quer ser dono de um pedaço de terra para ali fazer sua própria república. Como não tem dinheiro e o banco lhe negou um empréstimo, por conta de poucas garantias, bolou a coisa e chamou os amigos cabeças ocas para sujar as mãos.

A certa altura, um dos manés encoraja o outro: não se preocupe, vamos tomar dinheiro dos ricos e o banco tem seguro. Pois é, né? Se é rico, que se lasque, até para certos setores da direita.

O resultado é uma descarga de mais de, acreditem, vinte mil tiros disparados por quatro sujeitos contra toda a força policial de uma pequena cidade. Morreram três dos bandidos, sobrando só o líder, além de quatro policiais, noves fora a dezenas de feridos. Infelizmente, o tiroteio e a perseguição foram toscamente filmados, mas não tanto que não sirva como bom substituto duma novela ou coisa do gênero.

A REGRA DO OCTETO

Michael Lowi escreveu um livro bem lido nos cursos de ciências sociais e por alunos que têm professores esquerdistas, intitulado “As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchausen”. O sindicato dos sociólogos de São Paulo (!) o considera, textualmente, um dos mais importantes inteliquituáiz marxistas brasileiros, apesar de o mesmo não pisar por aqui há décadas, residindo e trabalhando na França há mais de quarenta anos. Para além de textos marxistas, ele se aventura também no ambientalismo. Lá no, não riam, não riam, Centro de Mídia Independente, escreveu o seguinte certa vez:

É importante ir construindo a relação entre as lutas sociais e as ambientais, pois elas tendem a concordar, unidas ao redor de objetivos comuns.

Considerando que o objetivo dos marxistas é substituir o capitalismo e o estado de direito pelo comunismo, fica claro que o ambientalismo deve ter o mesmo objetivo ou, no mínimo, destruir o capitalismo e tudo que o sustenta. Considerando que o capitalismo não é um sistema político, na prática isto importa que o ativismo ecológico pretende um novo modelo de sociedade, diverso daquele onde floriu o capitalismo, ou seja, sem maiores liberdades que não a de escolher entre capim e alfafa para o jantar.

O mais francês dos intelequituáiz brazucas afirma cristalinamente:

O ecossocialismo parte de algumas idéias fundamentais de Marx sobre a lógica do capital e de alguns dos descobrimentos, avanços e conquistas científicas do movimento ecológico e da ciência ecológica. Marx não havia colocado ainda a questão da ecologia em sua análise porque, na sua época, a questão era muito pouco evidente. Mas ele afirma, em O Capital, que o sistema capitalista esgota as forças do trabalhador e as forças da Terra. Traça um paralelo entre o esgotamento do trabalhador e o esgotamento do planeta. Portanto, o desenvolvimento do capitalismo acaba com a natureza.

No português claro isto quer dizer o seguinte: o capitalismo é ruim para o meio ambiente porque Marx disse que é. E teje dito, sô.

O bom desse artigo é que ele mostra como uma ideologia pode embotar o raciocínio lógico. A certa altura lê-se:

Então, a transformação revolucionária das forças produtivas passa pela questão das novas fontes de energia, pelas chamadas fontes de energia renováveis. No lugar do petróleo poluidor e da energia nuclear devastadora, necessita-se buscar energias renováveis, como a energia solar. Mas ela não interessa aos capitalistas, porque é gratuita, difícil de vender e não é mercadoria.

Mas haja madeira para se fazer um tapume deste tamanho na lógica e na realidade. Isso é que é tapume. Tapadices deste tipo só mesmo em mentes completa e totalmente dominadas por uma ideologia. Claro que a luz solar é de graça, até aí a água também o é. O que custa é a conversão dela em algo humanamente útil, assim como se paga pelo tratamento da água. Células fotovoltaicas já existem e são usuais para pequenas demandas energéticas, como calculadoras, relógios e aquecimento de água residencial. Aliás, um aquecedor solar não é nada barato. Enfim, há já um mercado para a utilização da luz solar, apenas que o mesmo ainda não equacionou a relação custos-benefícios de um modo atraente para a maioria dos consumidores. No geral, só três tipos de energia são realmente úteis aos humanos: luz, calor e a mecânica, ou seja, movimento. No fim, em quase todas as atividades humanas, as formas de energia disponíveis na sociedade são convertidas numa dessas três. E quase sempre se passa pela eletricidade antes.

Mas o que chama a atenção mesmo é o claro uso revolucionário das tais fontes de energia renováveis. Enfim, eis claro, cristalino, o uso ideológico das questões ambientais em prol de uma implantação de um novo modelo de sociedade. Como nas urnas a coisa é meio difícil, pelo menos nos países sem cultura paternalista de dependência do estado, apela-se agora pelo amor ao nosso quintal.

Este mesmo trecho, contra o qual não se encontrará uma só voz nos cultos ambientalistas, mostra como o debate não é técnico nem de longe. Energia é energia, sempre, não desaparece. Fonte de energia não é algo que faça surgir energia, é algo que gera energia útil aos seres humanos, mais especificamente é algo que transforma outros tipos de energia em um tipo desejado de energia. Por exemplo, a força mecânica das águas se transforma em eletricidade, que será conduzida a lares e empresas, que a converterão, via equipamentos vários, em luz, calor e, às vezes, em energia mecânica novamente. Fontes de energias existem aos montes, nem poderia ser diferente, já que energia é algo deveras abundante na natureza. O problema todo está em se obter fontes economicamente viáveis de energia, ou seja, que forneçam a energia desejada a um custo aceitável pelos consumidores. Se é para se preocupar com problemas ambientais, deve-se apenas acrescentar o impacto ecológico destas tais fontes na conta, não retirar o componente econômico, porque, capitalismo ou socialismo, estas conversões sempre terão um custo.

Considerando que toda fonte de energia tem custos e que os consumidores, por definição econômica, sempre procuram o que lhes é mais vantajoso, ou seja, mais barato, todo produtor de energia, numa economia livre, tem o interesse de baixar o preço para conquistar mais consumidores. Considerando que o custo energético também é um custo dos equipamentos de um lar, temos aí que produtos que consomem menos energia são mais atrativos aos consumidores. Portanto, produtos que façam mais com menos energia são ecologicamente razoáveis. E fontes que produzam mais a partir de cada vez menos são também ecologicamente razoáveis. E uma tal busca só é razoável para os produtores num ambiente em que estes possam ganhar algo com isto, em que possam visar o lucro, porque se o custo puder ser repassado impunemente ao resto da sociedade, via impostos, por exemplo, estes não buscarão aperfeiçoar nada, já que o mesmo sempre será pago de alguma forma. Portanto, mais uma vez, o problema não é o capitalismo, é capitalismo de menos.



segunda-feira, 24 de março de 2008

DAS CALÇAS E DAS CELULITES

Continuando a saga davídica de desmentir o apocalipse climático, vejamos aqui algumas opiniões de diversos cientistas sobre o tal aquecimento global antropogênico:

Claude Allègre, ex-ministro da Ciência da França, que foi dos primeiros cientistas a chamar a atenção da opinião pública para os perigos do aquecimento global, há 20 anos: "existem provas crescentes de que a principal causa do aquecimento global é originada por fenômenos da natureza"


Nigel Calder, ex-editor da revista New Scientist: "
quando os políticos e jornalistas declaram que a ciência do aquecimento global está estabelecida (em definitivo, formado um paradigma científico) mostram uma ignorância lamentável sobre como se aplica o método científico. (...) Há vinte anos que a investigação científica do clima se politizou a favor de uma hipótese particular (...) Imagina-se que quem apresenta dúvidas acerca do aquecimento global deve estar a ser pago pelas companhias petrolíferas. Foi exatamente o que eu acreditei até investigar as suas verdadeiras razões (...) O alarmismo do medo do aquecimento global promove manchetes dos media sobre as ondas de calor, que têm origem diferente, e relega para páginas interiores, dedicadas à economia, os milhões de dólares perdidos nas colheitas de Inverno da Califórnia devido à geada anormal".

Timothy Ball, um dos primeiros canadenses doutorados em climatologia: "Acredite-se ou não, o aquecimento global não é devido à contribuição humana para a concentração atmosférica do dióxido de carbono. Estamos perante o maior erro da história da ciência (...) Desperdiçamos tempo, energia, e milhares de milhões de dólares e criamos medo e consternação desnecessários num tema sem justificação científica."

Bob Carter, australiano do Laboratório de Geofísica da Marinha: "
Os argumentos circunstanciais de Al Gore são tão fracos que chegam mesmo a ser patéticos . É simplesmente inacreditável que tenham, juntamente com todo o filme, atraído atenção do público".

Igor Poliakov, da Universidade do Alasca, "A região do Árctico onde se verificou uma subida da temperatura [parte oriental, devido às depressões que levam ar quente] que se supõe fazer perigar os ursos polares mostra flutuações desde 1940 sem nenhuma tendência marcada pela subida".

Curiosidade: sabia que quase todo o sistema solar está em aquecimento? Marte, Plutão, Saturno, até o próprio Sol, a coisa tá esquentando em tudo que é canto. Devem ser as naves da NASA que passam por lá e poluem o ambiente...

Outra curiosidade: um recente estudo do Tenesse Center for Policy Research mostra que Al Gore apenas numa das suas mansões consome 20 vezes mais energia do que a média dos americanos, ou seja, Al Gore consome mais eletricidade num mês do que o americano médio num ano.
E este é o homem que disse que o aquecimento não é apenas um problema político, mas moral. E, nunca é demais lembrar, ele tem muito dinheiro investido em companhias de “energia alternativa”.

sexta-feira, 14 de março de 2008

CRÔNICA DO DESPAUTÉRIO

Um dotô diniversidá escreveu um artigo sobre a polêmica da pesquisa com células embrionárias. Foi publicado no JC e-mail, revista eletrônica da SBPC. O nome dele é Luis Carlos Lopes, professor de Comunicação na Universidade Federal Fluminense., historiador de formção. Como o escrito é um bom resumo das principais teses a favor da coisa, comenta-se a la Jack, difundindo modo usual das mailing lists. O texto do professor segue em colorido.

Ciências e valores humanos, artigo de Luís Carlos Lopes

Têm razão os que afirmam que ainda se vive na pré-história da humanidade. Prova disto é a imensa miséria material que ainda assola a maioria dos mortais, bem como a ignorância de muitos sobre os ‘mistérios’ da vida e do universo. Considerar a natureza e a vida humana como ‘mistérios’ sustentou e ainda sustenta os que querem que a maioria viva na obscuridade; que jamais saiam da caverna, enxergando a luz do sol. Para existir escravos, dominados e dominadas é preciso que lhes sejam sonegados o saber; que este não seja democratizado e acessível às maiorias.

Que raio de argumento é este? É apenas, claro, uma falácia ad hominen: ataca-se o interlocutor e não as idéias. Como se sabe, é preciso concordar com Hitler se ele diz que o céu é azul, porque, afinal, é verdade. Enfim, pouco importa quem diz o que, o que importa é se o que é dito é razoável ou não. Mas repare bem na última frase do parágrafo, volta-se a ela logo.

Na época do renascimento europeu, discutia-se o cosmos e a posição dos homens frente ao universo. Galileu foi condenado a abjurar, isto é negar o que disse, porque tinha provas que a Terra se movia. Seus juízes, como outros de outras épocas, quase nada entendiam das idéias do célebre cientista. O julgaram com base na religião, nos sensos comuns e na retórica de seus pseudos-conhecimentos.

O destino de Giordano Bruno foi mais cruel. Foi executado (1600), na fogueira do Vaticano, por acreditar que existiriam 'múltiplos mundos’ e que se poderia ser ‘radicalmente acadêmico de nenhuma academia’. Pensar contra a ordem, mesmo que poucos compreendessem o que brilhantes intelectuais produziam, podia ser fatal. Muitos foram perseguidos, humilhados, presos, deportados, torturados, executados simplesmente por terem idéias originais e imensa paixão pelo conhecimento.

Mais ad hominen. Aqui se percebe uma defesa das idéias científicas e sua intocabilidade por quem não seja cientista, o que vem a ser uma falácia de autoridade. Claro, se um cientista disser que o céu é vermelho, nada poderá ser oposto...haja paciência. E ainda chama de pseudo-conhecimento os argumentos usados em ambos os casos, ocultando o fato de que Galileu não encontrou apoio em nenhum outro pensador de sua época, católico ou não, ele cometeu o que hoje se chama mudança de paradigma.

O curioso é que o autor faz uso da história, mas não conta que mudanças de paradigma sempre, prestem atenção, sempre são problemáticas e demoram a se estabelecer. Até hoje se encontra na comunidade científica quem não dê lá muito crédito à relatividade. Pior, fala de gente que foi perseguida, mas não fala de gente que foi sustentada para fazer ciência pelos mesmos algozes das duas figuras referidas. Por exemplo, aquele monge de nome Mendel, aqui e ali conhecido como pai da biologia moderna e responsável só pela base da genética. Monge Mendel, compreendem?

As revoluções industriais, liberais e a primeira descolonização (século XVIII e XIX) mudaram este procedimento. Os cientistas desta época não deixaram de ser perseguidos, mas dificilmente eram mortos, apenas por pensarem diferentemente do que estava estabelecido consensualmente pelo poder político e social. Obviamente, eles sobreviveram por estarem em locais que os protegiam. Se estivessem em outros, a história seria diferente. Grandes nomes, tais como Darwin, com sua teoria sobre a evolução das espécies e dos seres humanos, Marx, com sua teoria sobre o capitalismo, seu método filosófico e sua crítica política, Pasteur com sua nova biologia, tiveram imensos problemas.

Bem, um artigo que chama Marx de filósofo sem maiores explanações já revela muita coisa sobre o autor. Mas que seja. E haja imaginação para saber como é que essas tais revoluções mudaram o tal do procedimento. Bem, parece que ele quer dizer que a perda do poder político, a Igreja Católica (era dela que se fala no artigo, não?) parou de perseguir cientistas.

Foram admoestados, principalmente Marx, por ousar discutir a natureza da nova ordem estabelecida na Europa e no mundo de seu tempo. Apesar disto, puderam trabalhar e deixar uma herança que ainda hoje, mesmo com revisões e atualizações, nutre a imaginação científica, em seus domínios específicos.


Sim, claro, Marx foi deveras admoestado. Chegaram até a confiscar seus rendimentos na bolsa de valores inglesa, oriundos da bolsa do amigo Engels e de fortuna familiar. Cogitaram até de enforcá-lo, como se sabe. Ah, não é disto que se fala, mas de críticas? Eita,mas que doideira, a crítica pública não é uma das maiores virtudes da ciência? Não é assim que se obtém a credibilidade? Qual teoria científica neste mundo não sofreu pesadas críticas? Einstein infernizou a vida de Planck e seus seguidores.

Ao longo do século passado, o legado das ciências matemáticas, naturais e humanas foi desdobrado ao infinito. O cientista, agora um proletário especial, passou a produzir cada vez mais em equipe, atuando em laboratórios, universidades, governos e, até mesmo, em empresas.

Mas que legado enorme tem essa ciência: infinito. Um artigo laudatório não merece nenhuma credibilidade, nunca. O tom dos artigos científicos, ou seja, dos artigos com conteúdo científico, sempre é neutro, isento e com o charme de uma bula de remédios, justamente para se ficar só com o que interessa á ciência: fatos, dados, argumentos, conclusões. Predileções é o que mais se busca afastar na atividade científica.

E o cientista é um proletário especial. Ah, claro, não só ele é da categoria destinada a governar o mundo, segundo a profecia de São Marx, como é de uma ala especial. Obviamente, pessoas especiais devem ser tratadas especialmente. Logo, quando se der a ditadura do proletariado, eles deverão ser tratados especialmente. Como o autor do artigo é cientista, seria demais dizer que talvez esteja advogando em causa própria? Pouco importa.

A partir das origens e da maior universalização da ciência, as conquistas foram inúmeras. Muitas delas serviram para a expansão do poder de quem já o tinha. Outras aumentaram as possibilidades de vida das maiorias. Ainda outras, permitiram que se compreendessem melhor os problemas da natureza e da vida social. As ciências não servem a um único senhor, podem estar a serviço da humanidade ou militar contra a sobrevivência da espécie.

O cientista de hoje perdeu o romantismo dos seus antecessores de mais de um século atrás. Tanto podem estar querendo tirar os homens da caverna, como podem estar desenvolvendo artefatos que mantenham as sociedades na maior ignorância ou mesmo as destruam.

Até aí dá para dizer o mesmo de toda e qualquer atividade humana. Irrelevante.

O paradoxo da ciência foi claramente exposto nos acontecimentos de 1945. A explosão da bomba atômica, na verdade um experimento científico-político e militar, pôs a nu esta contradição. É preciso aplicar o princípio da vigilância democrática e humanista ao campo das teorias e das práticas científicas.

Então, algum tipo de controle da atividade científica é aceitável? Só não pode ser por gente de fora da ciência? Ué, que raio de controle é esse em que o controlado se confunde com o controlador?

O mais grave é sem dúvida o das práticas, pois nelas é que se podem desenvolver monstruosidades ou se operar ‘milagres’ humanistas. A própria experiência da bomba revelou que os cientistas, em sua maioria, reconhecem os seus erros e são capazes de fazer o possível, dentro de seus limites, para evitar outras catástrofes baseadas em seu saber.

Falar em milagre humanista é coisa curiosa, é mais ou menos como falar em milagre demoníaco. E o autor dá por certo que sendo humanista é bom. E isso num artigo cheio de referências históricas. Mas, vá lá, eventualmente humanista e humanitário estejam aí como sinônimos. Não são, mas que seja, por ora.

A ciência e os cientistas não estão acima do bem e do mal. É possível discutir seus empreendimentos e verificar a pertinência dos mesmos no que se refere aos interesses da humanidade. Até aí, não há o que objetar.

Ok. Bem, nem tão ok, assim, afinal sempre resta o problema de saber quem fala em nome da humanidade.

O que é inaceitável é, por exemplo, impedir o ensino da teoria da evolução nas escolas, sob o pretexto da ofensa à tradição religiosa. Interditar o avanço para as mulheres que o aborto provocou comprovadamente pelo mundo afora. Questionar a pesquisa de células-tronco com base nos mesmos velhos preconceitos religiosos, que tanto prejuízos trouxeram à humanidade.

Que avanço o aborto provocou para as mulheres mundo afora? O aborto melhorou salários? Curou doenças? Aumentou a expectativa de vida? Noves fora poder engravidar sem se preocupar com as conseqüências, que outro benefício as mulheres ganharam com o aborto? Do assunto ensino da teoria da evolução, fala-se logo abaixo.

Obviamente, os religiosos têm o direito a ter suas idéias, mas elas não podem ser impostas ao conjunto da sociedade e a domínios que as religiões não compreendem.

E se a gente resolver usar o mesmo argumento contra a ciência, ele é válido?

A argumentação religiosa deve ser respeitada, como qualquer outro tipo de argumentação, dentro dos seus limites. Imagine-se, se vamos voltar ao passado, quando a última palavra ‘científica’ era da autoridade eclesiástica. Qualquer hora se estará reacendendo as fogueiras da Inquisição. Todos têm o direito à palavra, porém é preciso delimitar espaços e privilegiar a inteligência frente ao monstro da ignorância.

Cientistas são ignorantes em matéria religiosa e filosófica, logo, são ignorantes em matéria ética, logo, segundo os termos do próprio artigo, devem calar a boca em matérias éticas.

Os que julgaram Galileu e Bruno quase nada entendiam de suas ciências. Os julgaram a partir da tradição e dos sensos comuns. Fizeram a mesma coisa, os que condenaram e ainda condenam radicalmente, Darwin, Pasteur, Marx e muitos outros.

Mais falácia de autoridade. E quem entendia bem pra chuchu de ciência eram os marxistas soviéticos que proibiram o ensino da teoria da evolução ao argumento de que ela era capitalista por pregar a competitividade. Mas isto é só provocação. O que pega mesmo é que novamente se advoga que apenas cientistas possam criticar cientistas.

Os que julgam e repelem os que pensam na atual fase da modernidade, não procedem de modo diverso. A luta argumentativa para se validar tem que ir além dos limites da tradição e dos sensos comuns.

Só há um jeito de “lutar argumentativamente”: com a lógica, aquela que rejeita contradições e repele falácias. Fora disto, defender tal ou qual fato ou é diversão ou é política, é defesa de visão de mundo, de projeto de poder.

As idéias precisam ser debatidas para avançarem e não impedidas de circular.

Qual idéia a respeito das pesquisas com células embrionárias é impedida de circular? Mas de novo essa coisa de confundir crítica pública com repressão? Debater sem discordar não é debater, é propagar, se não for propagandear.

A pesquisa só funciona se tiver liberdade de ação e profundo sentido ético. A ética da pesquisa não pode se fundamentar em dogmas das tradições e, sim, na validade social do experimento. Se a pesquisa sobre as células-tronco pode salvar vidas é ridículo tentar objetar o seu caminho.

Um artigo repleto de história termina com uma pérola dessas. No texto, falou-se que quem não é de ciência não pode criticar os cientistas, porque os críticos não sabem do que falam. Bem, a supor que ainda valha alguma coisa nesse mundo, por questão de coerência, quem nada sabe sobre ética, também não pode falar sobre a mesma, logo, os cientistas, na condição de cientistas, não podem falar sobre ética porque não a estudam. Levando isto a termo, que vem a ser uma falácia de autoridade, obviamente não se pode esperar que quem não entenda de ciência venha a defendê-la, o que, obviamente, torna os ministros do STF incompetentes para a missão. Dando um passo adiante, só poderia falar sobre este específico assunto quem dele entende, o que não parece ser o caso do autor, seja pela absoluta ausência de questões relativas à biologia, seja pelo seu currículo Lattes (necas de biologia, epistemologia, filosofia da ciência, história da ciência...). Se quem nada entende de biologia pode defendê-la, por que quem não entende não pode criticá-la?

Validade social? O que significa isto? Utilidade? Ou conformidade com o projeto vigente?

Apesar de tanta história, não se falou uma linha sobre o fato de a medicina moderna dever as calças às barbáries nazistas. Ou seja, de tanto sofrimento nasceu muita coisa boa. É disto que se trata, então? E olhe que a medicina é fato consumado, não mera probabilidade. Aliás, cadê um só benefício concreto das pesquisas com células embrionárias? Ou ao menos uma só previsão factível? Nada, defende-se a pesquisa apenas pelo ato de pesquisar. É duma obviedade atroz, portanto inócua ao debate, que conhecimento pode gerar coisas boas. Esta não é a questão, nem de longe. O que se pretende com essa tentativa de invalidar os argumentos religiosos? Deixar de ouvir bons argumentos só porque emitidos por fulano ou sicrano? Ou porque não convém a uma dada ideologia?

Há bons argumentos em favor da liberdade de pesquisa científica e das pesquisas com células embrionárias. Nenhum deles consta do artigo, que, ao fim, é só mais uma peça de propaganda. Que mais dizer dum texto repleto de contradições e omissões relevantes ao debate?

E que dizer da criatividade, essa mola mestra do progresso? Ora, se o cientista, por qualquer razão, não pode utilizar uma dada linha de pesquisa, poderá usar outra, especialmente em se tratando de tecnologia, que vem a ser o que se discute em se tratando de pesquisas com células embrionárias, já que a ciência básica já foi feita, aliás, só existe em razão do tal monge católico.

Sim, desse mato sai cachorro, mas não por esse caminho.

Lembrete: Pasteur era cristão devoto.




quinta-feira, 13 de março de 2008

É PRECISO GARANTIR O PÃO, PARA DEPOIS BRIGAR PELA MORTADELA

Silvio Cordeiro viu uma notícia veiculada no SBT sobre pessoas que pirateiam grifes famosas. Mandou uma sucinta missiva eletrônica ao diretor da emissora. Vejam:

Para o Diretor do Jornal do SBT:
A campanha insidiosa que este jornal faz contra o pessoal que produz tênis e bonés de grifes famosas é uma completa insânia: vocês, uma TV que quer ser alguma coisa, fazem campanha contra cidadãos brasileiros que acharam uma perspectiva de trabalho que não interfere em nenhuma outra empresa do Brasil: fechando essas pequenas confecções, ninguém vai comprar bonés ou tênis originais: vão comprar produtos vindos da China, dando emprego pra chineses e nossos compatriotas vão viver de esmolas do Sr. Lula. Foi uma infelicidade ligar a TV e ver a insidiosa campanha contra nossos patrícios.
Façam reportagens mostrando as atividades ilícitas de juizes, de membros do congresso e do executivo: ou precisam de favores dos governantes?



Se a polícia tem recursos sobrando, faz sentido que se empenhe tanto em combater a pirataria. Considerando a nossa realidade, é aceitável a objeção do telespectador, em que pese seja de um nacionalismo exagerado (se o normal já é coisa para ficar para trás...mas agora o papo é outro). A pirataria não é defensável, mas gastar dinheiro escasso com isto ao invés de garantir que o cidadão possa ir em paz com sua patroa na sorveteria, bem, certamente isto é bastante criticável. Idem para a imprensa também, a qual, já não atua mais, no quesito, apenas o seu papel informativo, promovendo verdadeira campanha em prol de intereses comerciais (legítimos, sim, mas, o papo é outro).

terça-feira, 11 de março de 2008

MAIS É MENOS

Lucas Mafaldo escreve um belo resumo sobre as duas liberdades, negativa e positiva. Costuma-se falar também em direitos positivos, mas aí convém tomar cuidado para não se confundir com direito positivo (normas jurídicas objetivas vigentes). Eis o texto:

Hoje tentarei explicar a distinção entre dois tipos de liberdade, proposta por Isaiah Berlin, influente professor de filosofia de Oxford.
Liberdade positiva e negativa
A idéia básica de Berlin é que existem dois tipos diferentes de liberdade: liberdade negativa e liberdade positiva.
Atenção: "negativa" e "positiva" aqui não têm valor de adjetivo; trata-se só de uma forma de separar os conceitos, não de dizer que uma liberdade é boa e a outra é ruim.
Bom, mas o que significam estes conceitos? Vamos à explicação.
Liberdade negativa é "ausência de coerção", ou seja: é ausência de barreiras que lhe impeçam de realizar algo.
Neste conceito cabem todas aquelas liberdades que existem por si mesmas – e que continuarão a existir desde que ninguém as tome de você.
A liberdade de expressão, portanto, é uma liberdade negativa. Para que ela exista, basta que não haja ninguém lhe impedindo de falar.
Outro exemplo é a liberdade de decidir sobre como utilizar sua propriedade. Você sempre a terá, e só a perderá se algum agente externo interferir sobre ela.
Por outro lado, liberdade positiva é "possibilidade de agir", ou seja, é a capacidade de realizar algo de fato.
Nem toda liberdade negativa implica em uma liberdade positiva. Se você tem o direito à propriedade, mas não possui uma propriedade, você não pode exercer seu direito.
A liberdade positiva, portanto, não existe por si mesma. Para que ela exista, é preciso que as condições para o seu exercício estejam presentes na realidade. Ou seja: a liberdade positiva tem um preço. Ela não existe de graça: alguém precisa criá-la
Isso precisa ser enfatizado: toda liberdade positiva tem um preço. Em outras palavras: a possibilidade de agir depende que alguém crie as condições para que a ação seja possível.
Alguns exemplos: a liberdade de ter um carro só pode existir quando alguém trabalhou para construir um carro. A liberdade de ter acesso a serviços médicos só existe por causa do trabalho dos próprios médicos.
Como a defesa da liberdade por resultar em menos liberdade
Como toda liberdade positiva possui um preço, quando ela é cristalizada em direito isto implica no surgimento de um novo dever. Afinal, se dissemos que "fulano tem direito a ter um carro", estamos implicitamente dizendo que "sicrano precisa arranjar um carro para fulano".
Do mesmo modo que todo direito que possui um custo implica em um novo dever, toda liberdade que possui um custo implica em uma nova obrigação.
Quando Berlin propôs essa distinção ele estava preocupado com a possibilidade da retórica pró-liberdade ser usada para diminuir a liberdade do povo.
Não há problema em reivindicar uma liberdade negativa, pois, no fim das contas, estamos apenas pedindo para ser deixados em paz para realizarmos nossos objetivos.
Mas reivindicar uma liberdade positiva é bem diferente, pois cada nova liberdade positiva criada implica em uma nova obrigação – e, portanto, em menos liberdade para quem tiver que arcar com seu custo.
Ou seja, cada pessoa que exige uma nova liberdade positiva está exigindo que a responsabilidade sobre sua liberdade seja colocada nos ombros de outra pessoa, que será forçada a pagar o preço dessa nova liberdade.
E a questão é: quem vai ficar com essa nova obrigação? Quem vai pagar o preço dessa nova liberdade?
Concluindo
Acredito que o direito de reclamar da perda de uma liberdade negativa é bastante razoável. Afinal, você está apenas exigindo que alguém saia do seu caminho. Você quer o direito de buscar seus próprios objetivos.
Reclamar da falta de determinada liberdade positiva, por outro lado, já não me parece nada razoável. Quem faz esse tipo de reivindicação está dizendo: "quero poder fazer algo, e quero que vocês criem as condições para que eu faça isso".
Reivindicar uma liberdade negativa é querer ser responsável por suas próprias escolhas. Reivindicar uma liberdade positiva é querer que os outros se responsabilizem por suas escolhas.
A diferença é sutil, mas é essencial.

Um complementozinho: a liberdade negativa é inclusive condição para que a liberdade positiva aconteça de forma justa, ou seja, sem que ninguém seja obrigado a pagar por ela. Assim, quanto mais liberdade negativa, mais os interesses se convergem e pela própria dinâmica da vida social, estes se mostrarão como incentivos à realização de coisas que serão uma liberdade positiva para alguém. Mas, se você não puder usar o que é seu do modo como melhor lhe convém, então pode ser que não possa plantar batatas que darão a alguém o direito de comê-las ou usá-las de um outro modo que lhe seja conveniente. Portanto, no fim das contas, quanto mais liberdade negativa real, mais a liberdade positiva potencial da sociedade se concretiza.

HORIZONTE DE EVENTOS

Aqui já se falou que qualquer sociedade que não permita maiores escolhas a seus cidadãos não contém moral alguma, pela simples razão de que sem opções e diferenças não há intencionalidades no agir, só automatismo, logo, não há racionalidade e muito menos moral nesta práxis. Mostrando a mesma coisa e muito mais, vem à tona um belo livro em formato PDF, “Uma teoria sobre socialismo e capitalismo”, do professor Hans-Herman Hope, filósofo e economista alemão, atualmente dando aulas na Universidade de Nevada, Las Vegas, e Senior Fellow do Instituto Ludwig von Mises. O texto ganhou tradução para o português brasileiro pelas mãos do Sr. Klauber Cristofen Pires, que disponibiliza na versão eletrônica o seu e-mail: klauber.pires@gmail.com. Verdade seja dita, o tradutor acaba por colocar uma mancha no verniz da obra com um prólogo por demais laudatório em que se lêem coisas como “O professor Hans Hermann-Hoppe tem o dom de nos fazer olhar para além do óbvio”, “Dotado de um profundo senso humanístico”, “Este livro não somente se lê, mas também se ouve” e por aí vai. Como é coisa de uma página, logo se esquece deste deslize e se agradece pela tradução.

Na rave etika e inteliquituáu reinante, qualquer coisa escrita neste sentido é bem vinda. E de que exatamente trata o livro, além da questão da ética no socialismo? Constrói uma teoria científica econômica logicamente fundamentada, livre, na sua base, do empirismo (o que também pode ser seu ponto fraco, mas isto exige uma discussão impertinente nestes segundos); avalia as várias formas de socialismo conhecidas na história, e mostra que o capitalismo é um sistema moralmente superior e que o igualitarismo não é nada moral. Um pequeno trecho da introdução mostra a que veio a peça. Coisa de dar água na boca:

Será demonstrado que a teoria da propriedade implícita no socialismo não passa, normalmente, nem mesmo o primeiro teste decisivo (a condição necessária, senão suficiente) requerido para normas de conduta humana que possam requisitar para si serem moralmente justificadas ou justificáveis. Este teste, tal como formulado na chamada “regra de ouro” ou, similarmente, no imperativo categórico kantiano, requer que, para ser justa, uma norma deve ser geral e aplicável a cada única pessoa da mesma forma. A norma não pode especificar direitos ou obrigações diferentes para categorias diversas de pessoas (uma para os cabeças vermelhas, e uma para os outros, ou uma para as mulheres e outra diferente para os homens), porque uma tal norma “particularista”, naturalmente, jamais poderia, nem mesmo em princípio, ser aceita como justa por todos. As leis particularistas, porém, do tipo “eu posso ferir você, mas você não tem permissão para me ferir”, estão, como se tornará claro no curso deste tratado, justamente na base de todas as formas praticadas de socialismo. Não apenas economicamente, mas no campo da moral, também, o socialismo torna-se um sistema mal-concebido de organização social. Novamente, a despeito de sua má reputação pública, é o capitalismo, um sistema social baseado explicitamente no reconhecimento da propriedade privada e das relações contratuais entre os detentores de propriedade privada, que vence incondicionalmente. Será demonstrado que a teoria da propriedade implícita no capitalismo não apenas passa no primeiro teste de “universalização”, mas também que ele se torna a pré-condição lógica (die Bedingung der Moeglichkeit) de qualquer tipo de justificação argumentativa: Quem argumenta em favor de qualquer coisa, e em particular em favor de certas normas como sendo justas, deve, implicitamente, pelo menos, pressupor a validade das normas de propriedade implícitas no capitalismo. Negar a validade destas normas de aceitabilidade universal e argüir em favor do socialismo é, então, contraditório.

Em tempo: o título deste post é uma pequena provocação aos nossos festejados inteliquituáiz, que vivem se gabando de sua interdisciplinariedade (que o autor do livro também professa, aliás), multidisciplinariedade, meta-disciplinariedade e, claro, da sua a-disciplinariedade, mostrando que não é privilégio de Derridas o uso de expressões de ciências firmadas em textos doutra natureza. Obviamente, não se precisa dela para se validar as teses e ganha um salgadinho de cana quem conseguir fazer a devida relação entre o título hawkinsiano e o texto. Promoção válida apenas para eles, para gente séria é covardia.

segunda-feira, 10 de março de 2008

HOJE, SÓ AMANHÃ

O inverno findou-se, os gremlins foram torrados ao sol do meio dia, mas, como diz o título, tem, mas acabou, ops, hoje, só amanhã.